quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Viagens (?)

Era uma manhã de outono – um típico amanhecer daquela estação do ano que a fazia lembrar a sua infância – em que o sol espreitava timidamente. Contudo, luminoso, o suficiente, para destacar os tons marron e encarnados das folhas das árvores. Acordava cedo, desde pequena, mas com a idade, esse hábito tornara-se uma imposição. Ia encontrar-se com a sua velha amiga para almoçar e esperavam-na horas de conversa non stop – como antigamente. O tipo de encontros que parecem “viagens que se perdem no tempo”, tal a sintonia entre as duas almas.

Há coisas que nunca mudam e, afortunadamente, algumas pessoas ficam para sempre. Com a sua velha amiga, ela conseguia falar de quase tudo – existe um quase, impenetrável, que permanece escondido num cantinho do coração. Diz-se que à medida que o tempo passa, mais importantes se revelam as conexões com as pessoas que nos conhecem desde jovens. As tais com quem não precisamos de inventar porque que nos sabem ler como ninguém, como evoca a canção: “E dizes-me a cantar é assim que eu sou”- maravilhoso é podermos ser, simplesmente, quem somos e sermos amados por isso (ou apesar disso!).

Saboreava, delicadamente, o vinho escolhido para a ocasião – um dos seus maiores prazeres – enquanto escutava as novidades da sua amiga. Eram seres com vivências distintas, mas partilhavam a visão da vida e os valores que consideravam fundamentais. Pelo meio dos temas que se enredavam uns nos outros – talvez fosse necessário um guião – recordavam, em modo de filosofia, a mensagem da canção de Pedro Abrunhosa: “a vida são dois dias e um é para acordar” – muitas vezes, não nos apercebemos do real significado deste verso. Só é possível fazê-lo, quando estamos despertos para o mundo e isso leva tempo - o tempo de cada um.

A amizade, para ela, consistia num porto de abrigo que consola os “olhares que trazem solidão”. A cada ano que passa, mais frenéticas se mostram as exigências da vida adulta e menos fácil se torna alimentar os reencontros. Com efeito, como em todas as relações que se constroem a duas (ou quatro) mãos, há que investir tempo e esforço para que seja possível manter o contacto. Ela fazia questão de levar a sério essa tarefa, uma vez que o retorno se transformava num estado de paz de que não era capaz de abdicar.


“Já vai alta a noite” – o dia passou rápido demais - e estava na hora de voltar a casa. Despede-se da sua amiga até uma próxima ocasião e, tal como um camelo acumula água nas suas bossas para os períodos de seca, também ela tinha carregado as suas reservas de energia para os maus momentos. O seu coração está cheio.

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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O livro da vida

Desafiada por Hilén Miramontes, vi, recentemente, o filme «O Livro da vida» (2014). Embora se trate de uma película do género de animação e que, à partida, se julgue destinar a um público infantil/juvenil, pode (e deve) ser visionada por pessoas de todas as idades. Narra a história de três amigos, destacando-se o amor e a superação de adversidades sob o pano de fundo do dia dos mortos, celebrado inusitadamente no México.

O 2 de novembro consagra o dia dos «recordados», ou seja, a altura do ano em que se faz homenagem aos que já partiram deste mundo. “Só morre quem é esquecido” (Miguel Esteves Cardoso) e, por isso, enquanto os nossos entes queridos forem lembrados, continuam vivos. A memória assume, deste modo, um papel relevante na consagração de um facto da vida a que ninguém escapa: a morte. Contrariamente às práticas que conhecemos na maioria dos países ocidentais em que esta efeméride corresponde a um dia sombrio, marcado por incursões fúnebres aos cemitérios, as tradições de origem indígena no México são sinónimo de festividade – reconhecidas como património cultural imaterial da UNESCO. Há um dia no ano em que os mortos (ou “os recordados”) regressam para visitar os vivos e a sua chegada é esperada, entusiasticamente, por quem lhes sente falta deste lado da barricada. É uma forma saudável de se fazer o luto, na qual são preparados altares com os objetos preferidos dos falecidos e confecionadas, com primor, as suas refeições preferidas – a gosto dos mortos, mas quem se deleita são os vivos, obviamente. Música, desfiles de máscaras, enfeites de flores e muita, muita cor, em todo lado. Comemora-se a morte e a vida porque são duas caras da mesma moeda.
Desafio#06 (Hilén Miramontes)
Voltando ao filme, a abordagem apresentada pode contribuir para aligeirar o tom carregado dos conceitos de morte e de perda, fornecendo diferenças de perspetiva na observação da realidade. Gostei, em particular, do papel irreverente atribuído à personagem feminina cujo amor vai sendo disputado pelos dois grandes amigos – esta parte é um clássico. Porém, contrariamente ao que costuma suceder em histórias similares, a rapariga não se apresenta como uma donzela passiva e delicada que fica à espera que tudo aconteça à sua frente. Nada disso! Tem os seus próprios objetivos e ela mesma vai à luta (literalmente), toma as rédeas da população em situações de crise e demonstra assertividade perante os acervos machistas de alguns personagens.

Sustentando uma mensagem de valores fundamentais – amizade, união, luta pelos sonhos – o formato do “livro da vida” traz para o ecrã, de modo pertinente e inovador, os desafios atuais de homens e mulheres, não deixando de nos divertir e emocionar com toda a sua magia.



Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#06). A ideia do filme «O livro da vida» (2014) fornecida por Hilén Miramontes  serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   


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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Respirar

O vazio assomava, de tempo a tempo, e apoderava-se da sua alma, sem pedir licença. Quando isso sucedia, evadiam-se as forças para respirar - a respiração consistiria, então, numa tarefa demasiado exigente. A cada suspiro, o seu coração tornava-se mais e mais pequeno. Esquecia-se de quem era, de tudo o que já havia conquistado, de cada uma das batalhas superadas, das toneladas de amor que já havia recebido. 

Olvidava que era especial, que era uma espécie de alma superior, não no sentido arrogante da expressão, mas tinha a certeza que o mundo carecia da sua generosidade. Nesses momentos, não enxergava a sua beleza, grande e genuína. Não conseguia acreditar no espelho interior que lhe dizia que também ela era filha de Deus. Que era feliz - sim era. Mais fácil seria acreditar que a felicidade vinha nas encomendas para terceiros e que, no seu caso, haveria um engano nos correios. Habituou-se, desde muito nova, a fingir que está tudo bem – e está tudo bem! – e a sacrificar-se pelos outros e pelas circunstâncias. Deixou de reconhecer com nitidez a linha que separa a força da sua personalidade em querer fazer as coisas por si própria e a necessidade de ter mesmo de fazê-las – porque ninguém as faz por ela. É muito amada, sabe disso, porém, são algumas as vezes em que se sentiu escorregar de tão esguia que é a sua rede. Continua a sonhar. Continua a tentar saber viver e oculta o maior receio de todos - ser esquecida.

Pequenina (ou até minúscula) se sente nessas horas em que custa respirar. Sozinha. Indefesa. Há uma voz bem lá no fundinho que grita (mas ninguém ouve!), como se tratasse de uma criança que quer sair do carrocel que andou rápido demais:
- «Venham-me buscar!»

Ou como diria a irreverente Mafaldinha de Quino:
- «Paren el mundo que me quiero bajar


Autoria da Fotografia: Nuno Galante

Começa um novo dia e, com os primeiros raios de sol, volta a respirar com naturalidade – afinal não custa assim tanto. Recupera a sua fiel amiga  - a esperança -  de que tudo vai ficar bem - como sempre.     


Está tudo bem.


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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Big Little Lies e The Handmaid's Tale: mais do que vencedoras de Emmys


Sou uma apaixonada por cinema, teatro e televisão. Na verdade, fascinam-me as histórias e a forma como são contadas e interpretadas. Atraem-me personagens reais ou próximas do real que sejam densas, que me ponham a pensar – além de entreter, não será esse o papel das histórias, fazer-nos exercitar o pensamento crítico? - No caso das séries televisivas, admito que é por alturas e do que me capta ou não a atenção. Nas últimas semanas, influenciada pelas referências aos Emmys deste ano, tive curiosidade de espreitar duas séries que abordam, de modos diferentes, o universo feminino: Big Little Lies e The Handmaid's Tale.

Big Little Lies, uma mini série de 7 episódios, conta com a participação e a produção de Nicole Kidman e Reese Witherspoon. O enredo é completamente viciante – será esse o critério de uma boa série?! - enfatiza a vida de 5 mulheres. Acompanhamos a vida de cada uma delas, ao mesmo tempo que assistimos ao cruzamento dos seus percursos e dos seus dilemas enquanto mulheres, mães, conjugues, profissionais e cidadãs. A série toca em feridas que merecem um destaque no palanque atual: o conciliar da vida profissional e familiar, a violência doméstica, a violência sexual, o bullying, etc. Os temas «quentes» são apresentados de uma forma interessante e sobressaem os valores de união, companheirismo e amizade entre as mulheres – identifiquei-me na relação com as minhas amigas nas confidências e no apoio incondicional. Para além das interpretações brilhantes do elenco, o argumento é excelente e a banda sonora deixou-me agarrada durante dias.


The Handmaid's Tale foi uma das séries que mais me perturbou na vida. Poderá parecer contraditório ou até dissuasor, mas é verdade. Confesso que a meio do primeiro episódio pensei em parar a visualização…deixei rolar e tornou-se aditivo. A cada episódio sentia um sufoco, uma espécie de murro no estômago e não me recordo de ter visto nada, sequer, parecido. Baseada num romance de Margaret Atwood (1985), a série gira em torno de um conceito: a sociedade, num tempo não muito distante do atual, sofrerá uma transformação radical em que as mulheres serão o elo mais fraco. Depois de conquistas durante séculos de História da Humanidade, a mulher é subjugada e volta a não ter quaisquer direitos: não pode trabalhar, estudar, nem sequer pode ler um livro – todos os livros são queimados. Como há um problema grave de infertilidade nessa sociedade, as poucas mulheres férteis são feitas escravas - as Handmaids são as reprodutoras que vestem um uniforme vermelho e que seguem os rituais impostos pela elite para gerarem os filhos das novas gerações. A partir daí, só vendo… Chocante em muitos momentos, empolgante em tantos outros, nos quais torcemos pela protagonista – fabulosamente interpretada por Elisabeth Moss – que esconde, por baixo do pano da submissão, uma força e uma inteligência inacreditáveis.


Embora sejam séries em que o protagonismo é feminino, devem ser vistas por homens e mulheres de todas as idades. E, depois de visionadas, seria interessante que dessem lugar a partilhas, conversas e discussões de pontos de vista. 


Publicado em Capazes - 12.10.2017

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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O(s) primeiro(s) dia(s) do resto da vida

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Será mesmo uma frase batida?! Vem-nos à memória esta letra de Sérgio Godinho e fazemo-la nossa. Será que temos consciência dela, no dia-a-dia? Tenho dúvidas… na maior parte do tempo, o ser humano encontra-se absorvido nos seus mil e um rodopios e não dá a devida atenção ao significado de cada amanhecer. Acredito que todas as experiências fazem parte da vida, mesmo as menos positivas ou as mais irrelevantes. Inspirada por esta bela canção, dei-me conta, que há tantos primeiros dias…
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
O primeiro dia do resto da minha vida que me recordo com nitidez foi a véspera da viagem de Buenos Aires para o Porto que deu início a uma longa aventura que se prolonga até hoje. Apesar da curta experiência de vida na altura – 6 anos acabadinhos de fazer - tinha a noção de que estava a viver um momento único, pois tive a preocupação de escrever, num quadro de ardósia, o nome de todos os coleguinhas do pré-escolar como agradecimento à cartinha que me ofereceram na despedida, para que eu os guardasse na memória.


Desafio#05 (Sabrina Mouta)
Autoria da fotografia: Sabrina Mouta 
Nasce um novo dia e no braço outra asa
A escola fascinou-me, desde cedo. Mais do que a escola como sistema formal, o que sempre me arrebatou foi a aprendizagem e tudo o que lhe está subjacente – talvez isso explique a formação académica que escolhi e a área na qual trabalho, as Ciências da Educação. Tendo a minha família emigrado para Portugal a poucas semanas do início do ano letivo, um enorme desafio me aguardava no primeiro dia de aulas: além da integração a que qualquer criança está sujeita, eu não sabia nada de português! Foi o primeiro dia do resto da minha vida, em que a Professora Amélia se revelou uma pessoa especial e recordo-me de lhe ter pedido de forma assertiva para ficar na fila da frente porque queria entender melhor as palavras – em menos de um mês dominava o idioma e a língua portuguesa tornou-se uma verdadeira paixão.
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
Há dias que nem no nosso imaginário deveriam existir e a morte de um pai ou de uma mãe em idade de crescimento é um deles. Quando sucede repentinamente como no nosso caso, o mundo desaba…os dias seguintes correspondem a reptos de um novo começar. Lembro-me de arrumarmos a casa, de termos tudo organizado – à maneira dela. A ausência passa pela alteração das logísticas e das rotinas familiares e, aí, a coragem aparece vinda de lugares que nem sabíamos que existiam dentro de nós.
E é então que amigos nos oferecem leito
18 anos e a entrada na Universidade…em Coimbra! Um sonho tornado realidade e mais um primeiro dia do resto da vida que me transformou profundamente enquanto ser humano. Vim para a Universidade para estudar, tirar um curso, mas o que vivi foi muito além de umas aulas, uns exames ou um canudo – o tal redigido em latim, com banho de prata, que demorou 8 anos a ser produzido. Foi em Coimbra que me descobri enquanto pessoa, na companhia dos melhores amigos do mundo – os de sempre e para sempre. Já lá vão uns anitos e sinto-me grata por todas as aprendizagens, as maluqueiras e os momentos vivenciados.
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Os anos passam e a caloira dá a vez a uma adulta cheia de vontade de mostrar o seu valor. E, nesse sentido, o primeiro dia de trabalho assume destaque: – “já sou uma profissional!” Sonhadora como sou, as ilusões de um mercado do trabalho cor-de-rosa foram-se desvanecendo, experiência após experiência. No mundo atual, somos constantemente postos à prova e é-nos exigido muito mais do que o desempenho de uma função. Recentemente, celebrei, mais um primeiro dia do resto da vida por ter conquistado uma condição um pouco melhor profissionalmente, após vários anos de trabalho em circunstâncias precárias e tendo atravessado inúmeras adversidades.
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Segue-se em frente porque não há outra direção. Não conheço outra forma de viver, a não ser a luta e a determinação. E, sem medo, com a mochila carregada de sonhos e uma dose de loucura razoável, acalento, ainda, o desejo de ter por diante muitos outros primeiros dias para poder contar…
“E vem nos à memória, uma frase batida,
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”
(Canção de Sérgio Godinho)

Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#05). O ponto de partida foi a canção de »Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida» (Sérgio Godinho) fornecido por Sabrina Mouta.  
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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Do outro lado...

Não sei o que está para lá das muralhas deste castelo que me coube na rifa. Há dias que custa tanto abrir os olhos e não te ver por cá. Não sei para onde foste, quando cruzaste o muro empedrado. Passaste a fronteira, cedo demais – talvez seja sempre cedo. No entanto, por mais que custe aceitar, não deixa de ser O momento.

Partiste num dia de Inverno. Será que te apercebeste que tinha chegado o fim? Terás visto a tal luz ao fundo do túnel – dizem que se vislumbra a vida em flashes. Imagino que, com o avanço da tecnologia, esse portal para o outro mundo tenha também evoluído e que os formatos sejam, hoje, mais sofisticados. Quem sabe, uma tela gigante na qual se projecta um slide show com os melhores momentos – uma espécie de best of. Se a passagem assumir contornos profissionais, não pode faltar uma banda sonora à altura.


Desafio#04 (Nuno Galante)
Autoria da Fotografia: Nuno Galante

Não sei o que está do outro lado desta coisa a que chamamos vida. Viver é insólito, até mesmo quando tudo acaba e não se faz a menor ideia do que sucede a seguir. O que acontece a quem atravessa o paredão, nos derradeiros dias? Há quem diga que não haverá nada mais e, assim sendo, somente um precipício, no qual não se avista o fundo. E silêncio. Uma quantidade infinita de silêncio.

Por mais controladores e controlados que sejam os dias, por mais certinho ou desvairado que seja o percurso, por mais moedas de ouro que se conservem ou que se estoirem, no final, ninguém escapa. Além disso, a passagem é solitária, não se pode levar um acompanhante para segurar as tochas que clareiam o caminho.

O que fazes aí, do outro lado? Não sei como passas os dias, longe de nós - tantas perguntas sem resposta, tanta saudade sem consolo. Não sei. E quando não se sabe o que acontece, pode-se imaginar, certo? - tudo cabe na mochila do imaginário. Há dias, por acaso – nada é por acaso – tropecei num dos vídeos do documentário “Human” que me deixou arrepiada com a naturalidade com que um homem que tinha enviuvado há pouco tempo se referia à morte da esposa: - “A minha mulher mudou-se para o céu!”. Sem dramas, como se tratasse de uma simples alteração de residência. E não será apenas isso?

- Num refúgio bonito e cheio de paz é onde te imagino. Não sei…


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#04). A fotografia fornecida por Nuno Galante serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Deixa tudo para trás!

Deixa tudo para trás e não vires a cabeça. Adiante é a mirada, mesmo que o caminho tenha acentuadas curvas. Deixa para trás o que não queres, o que não sentes. Deixa para trás a frustração dos dias enormes em que o gesto entediante de olhar para o relógio prolonga a duração das horas e dos minutos.

Desafio#03 (Tatiana Salvador)
Autoria da fotografia: Sandra Neto

A vida passa, os anos correm (ou voam!) e de repente…já foi! E não deixaste tudo para trás. Não foste vingar a tua missão – tens uma, sabias?! O que gostas realmente de fazer? O que te dá pica? - sabes a que me refiro?! Ao bichinho que temos cá dentro e que há que alimentar, sob pena de nos reduzirmos a uns seres medíocres. Falo daquilo para que tens vocação na vida e que te dá um friozinho na barriga – as tais borboletas no estômago que todos falam. Será pintar?! Então, vai buscar as tintas e os pincéis que tens esquecidos no sótão e acaba esse quadro que está à espera que te tornes o próximo Picasso. Ou talvez menos, não importa. O resultado, em si, pouco interessa, comparando com o gozo que dá a batalha pela conquista dos teus objetivos – não os do vizinho do lado, não tens de andar a reboque dos sonhos alheios.

Às vezes, ficamos suspensos na névoa de não sabermos quem somos. De não sabermos quem queremos ser e de nos confundirmos com as ideias do rebanho. Nessas alturas, talvez pareça que o mundo não nos sabe dar o valor merecido e que o olhar dos outros não é sensível, o suficiente, para nos acolher.

Mas tu podes deixar tudo para trás. Podes seguir em frente, arriscar, espreitar o que está no atalho seguinte. E, se não for melhor por aí, tentas o trilho mais comprido. Há que perseguir o horizonte - o teu. Aquele que te aparece entre sonhos e acordares em noites de lua cheia; o mesmo que o pássaro verde te sussurra ao ouvido, nas caminhadas ao pôr do sol. O essencial é não perder o rasto do sonho e seguir em frente, como dizia Martin Luther King:

“Se não puder voarcorraSe não puder correr, ande.
Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.”


Deixa tudo para trás. E, quando sentires que tudo vai dar certo…sorri!


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#03). A fotografia fornecida por Tatiana Salvador serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   

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