terça-feira, 25 de julho de 2017

Quando é que nos tornámos adultos e o mundo ficou sério demais?!


“ (…) Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções.”
(Afonso Cruz, In O Pintor Debaixo do Lava-Loiças)

Numa viagem que fiz recentemente, voltei ao velho vício de ouvir conversas alheias - desta vez, a prosa não se revelou tão deliciosa como em outras ocasiões. Comecei a escuta por um mero acaso, talvez por me tentar distrair da cavaqueira mental que me absorvia. Chamou-me a atenção o discurso monocórdico e formal de uma rapariga – não sei precisar a idade, mas não teria mais do que uns 18/19 anos – que se assumia, altivamente, como a monitora de um grupo de crianças – catequese ou algo do género. Um sermão de cariz petulante, pseudomoralista e, sobretudo, chato, destinado a miúdas de 9/10 anos, fez-me virar a cabeça para trás várias vezes, no sentido de confirmar com os olhos, a impressão do que estava a captar com os ouvidos. Tratava-se, sem dúvida, de uma imposição patética de quem tem uma meia dúzia de anos a mais e pensa que sabe tudo sobre a vida: - «para a próxima teremos de ter outros critérios de seleção de quem vem ao convívio!». Fez-me lembrar a arrogância das praxes académicas em que os alunos do 2º aluno exigem ser apelidados de «doutores» pelos caloiros que são tratados abaixo de cão, literalmente.


[Autoria da imagem: Adriana Oliveira]
Agarrei-me à cadeira, e vi que os dois rapazes da fila ao lado apresentavam a mesma expressão estupefacta do que eu em relação à insolência daquela pirralha. Apeteceu meter-me na conversa – na realidade era um monólogo em tom de ditadura - mas contive-me. Olhei pela janela e como estava quase a chegar ao destino, tentei abstrair-me, o que se revelou impossível porque fui interrompida por um sussurro estranho, de difícil perceção – em pleno autocarro, a tal rapariga estava a rezar o terço em voz alta. Pensei que estaria a ouvir mal e fiz questão de confirmar – ‘Avé Maria…’. Era real, estava mesmo acontecer! Estava a rezar, muito concentrada, imediatamente depois de um episódio que poderia ser apelidado de tudo, menos de compaixão pelo próximo. Obviamente que aqui não é criticável a profecia religiosa, apenas o paradoxo de comportamentos revelado.

Saí do autocarro e fui à minha vida - como vamos todos. Não sei como terá terminado o filme do sermão dos peixes que assisti naquela tarde. A rapariga aparentava demasiada amargura para tão pouca experiência de vida. Espero que, mais cedo ou mais tarde, ela possa cair em si, e não queira ser adulta, antes do seu devido tempo. O mundo gira depressa e, quando damos por ela, já está sério demais. Ela pensa que sabe tudo; no entanto, desconhece, seguramente, que se só a essência de quando somos crianças nos pode preservar quando a dureza da vida nos quer levar por diante.

Na infância, somos exímios em viver o presente – mesmo quando não vivemos, exatamente, no melhor dos cenários. Temos a capacidade única de meter os problemas em gavetas e desfrutar do que nos dá prazer, ao máximo. À medida que o tempo passa, tornamo-nos menos capazes. Ficamos reféns da zaragata mental que nos manipula a olhos vistos. Esquecemos o toque da areia molhada nos nossos pés, quando nos enterramos completamente nas brincadeiras dos dias longuíssimos de praia. Deixamos de lembrar o quão maravilhoso é saltar em cima das camas – à revelia dos pais - e achar que vamos morrer de cócegas. Pensamos que vamos mesmo morrer a rir – e se isso acontecesse seria tão bom, não?!

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Aquele dia do calendário

Havia um certo dia do calendário que ela teimava em não marcar. Já lhe tinha passado pela cabeça engendrar uma artimanha para passar do 7 para o 9, sem ter de viver as 24 horas (tantas!) do dia 8 de julho – quem sabe, uma boa ideia para um cientista maluco. Desde há muitos anos, a proximidade do aniversário, deixava-a apoquentada. Tratar-se-ia de um mero e tão comum receio de envelhecer? Humm… não seria esse o caso, pois ela não se importa demasiado com a tal da P.D.I ou, pelo menos, tenta rir-se com ela (não dela!). Na realidade, aquela data não evoca o júbilo esperado porque corresponde ao dia, no ano inteiro, em que sente mais saudades da sua mãe, que viu partir muito cedo – suponha-se que seja um sentimento comum a quem experienciou perdas precoces. Para ela, acaba por ser um paradoxo, o momento em que se celebra a vida e a constatação de que a origem de tudo, já não está cá. Não está cá para puxar as orelhas X vezes – uma por cada ano – nem fazer demonstrações pateticamente lamechas do seu amor (como só ela sabia fazer!).

Autoria da imagem: Adriana Oliveira

É uma fascinada por histórias e memórias. Contam-lhe os familiares mais próximos que o seu nascimento fora muito desejado pelos seus pais, após anos e anos de tentativas para terem filhos. A sua chegada foi, assim, como uma bênção naquele lar e, por isso, os aniversários transformaram-se em acontecimentos festivos obrigatórios. Havia tantas razões para celebrar a vida! O seu pai enchia-a de brinquedos – os topo de gama da época – e a sua mãe era um bocadinho mais forreta, mas caprichava no aspeto impecável das roupas, nos totós e nos penteados. Os seus tios enchiam-na de mimo e as suas costelas doíam de tanto rir nas alturas de reunião familiar – é maravilhoso ficar dorido à custa de gargalhadas, não é?! - À sua volta, desde sempre, muito amor.


Talvez por ter reservas de amor bem aprovisionadas é que lhe foi sendo possível, ao longo do tempo, ultrapassar as intempéries. Ela acredita que o amor – sob todas as formas e feitios - é a chave de tudo. Como dizia Pablo Neruda: “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”. E é com essa inspiração que ela acalma o pequeno coração, a cada 8 de julho. Hoje sente-se grata por mais um aniversário, mais um ano de vida em que vale a pena viver para continuar a sonhar.

P.S - Obrigada, Tia Maria, pelas memórias.
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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Quem tem uma espécie de memória de elefante?!


Olhei para o calendário e, por automatismo, pressionei o botão «retroceder», iniciando uma viagem no tempo para verificar o que terá sucedido, naquela altura, em anos anteriores. «- Há 5 anos atrás, neste dia, estava …». Chamem-me louca – eu sei que sou um bocadinho – mas devo ter incorporado, de forma natural, algo semelhante à funcionalidade de partilha de memórias do facebook e julgo que não me sairia nada mal se, por acaso, inventassem um concurso do género ‘quem tem uma espécie de memória de elefante?!’. Trata-se de um processo mnemónico involuntário que, com o passar do tempo, se foi aprimorando… talvez esta componente da memória se tenha desenvolvido em contraste com a minha diminuta capacidade de recordar rostos, pois nesse plano sou mais do tipo memória de peixe – o cúmulo é não reconhecer uma funcionária de uma loja que me estava a atender depois de me afastar, por minutos, para fazer uma chamada telefónica.

Tento conviver com esta alienada capacidade – embora tenha momentos em que prefiro omiti-la, por sentir, no olhar dos outros, reprovação ou desconfiança: - ‘Tu lembras-te mesmo disso? Não é possível!’. Recordar factos e situá-los no tempo nem sempre constitui uma mais-valia, uma vez que existem coisas em que dá jeito fazer um completo delete – a nossa sanidade mental agradece. Assim mesmo, acho que vale a pena este pequeno exercício – que está ao alcance de qualquer um que se disponha a fazê-lo – porque com ele se consegue, facilmente, identificar pontos de sincronia, ao longo da vida. Ajuda-nos a acreditar na magia e ela é tão necessária!

O universo está em sintonia – se lhe dermos um pouquinho de atenção - não é só um trambolho caótico que nos faz desesperar tantas e tantas vezes! A maior parte do tempo, andamos distraídos e não reparamos nos sinais, ou como dizia John Lennon: - “life is what happens to you while you’re busy making other plans”. Ambicionamos o controlo… fazemos força, muita força, para nos tornarmos cada vez mais inteligentes, lógicos e racionais. Como se o instinto, a emoção e o lado mais subjetivo nos conferissem inferioridade. E ninguém quer ser fraco, frágil, ou inseguro, pois não?! É uma pescadinha de rabo na boca…

Reparar nos sinais do tempo transformou-se num género de vício que me conforta. Fortalece a ligação comigo e com o que me acontece. Faz-me dar as mãos à menina que, dentro de mim, não deixa de sonhar e de observar com curiosidade as coisas que parecem estranhas neste mundo.

Então, hoje, olhei para a data e… apercebi-me que faz 1 ano que criei o blog “celestices”. Apesar de escrever desde que me lembro, apenas no ano passado consegui ganhar coragem para expor os meus rascunhos. Assumo o “celestices” como uma plantinha que vou alimentando com alguma regularidade, à espera que possa florescer. Aos poucos, a disciplina devolve prazer e reconhecimento e, assim, como um peixe na água – ou um caranguejo, dado o meu horóscopo – vou continuando a escrever. E a olhar para o calendário à procura de memórias felizes…


P.S – A quem me lê: MUITO OBRIGADA!


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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Encontros e despedidas

«(…) e, assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem/
a hora do encontro é também de despedida (…)»


Sou fã de uma canção de Maria Rita - filha da maravilhosa Elis Regina – que fala de encontros e despedidas. A vida como um ponto de encontro físico e emocional - porque estamos constantemente em viagem, dentro e fora de nós.

Ao longo do tempo, experienciamos encontros, desencontros e reencontros - a mesma raiz que desemboca em palavras que assumem significados distintos. Há dias, reencontrei amigos que residem a mais de 20 horas de voo… e foi, simplesmente, maravilhoso aquele abraço e as partilhas sucedidas - fez-me repescar algumas recordações.

Há muitas histórias de vida que inspiram filmes e a da minha família poderia dar uma trágico-comédia com laivos de Emir Kusturica. Sou descendente de emigrantes europeus (origem portuguesa, espanhola e italiana) que se aventuraram pelo mundo da América do Sul. No meu sangue circulam ímpetos de várias culturas latinas – talvez isso explique muita coisa! – e interesso-me por conhecer as minhas origens, sempre que posso.




Do que me foi dado a conhecer, as primeiras despedidas começam com o meu avô paterno, no final da década de 30. Português de gema, decide largar o velho continente, primeiro em direção ao Brasil e, depois, fixando-se na terra do Tango, para fugir à ditadura salazarista que, por cá, vigorava. De aventura em aventura, acabou por ir parar aos confins do mundo – literalmente – como dizia o Papa Francisco, no seu célebre discurso do Habemus Papa, em 2013. Tierra del Fuego foi o destino do António, pai do meu pai, tendo trabalhado na construção de uma ponte num dos locais mais a sul do nosso planeta. Anos mais tarde e após constituir família em Buenos Aires – onde viveria até aos 90 anos - regressa ao seu país de origem, apenas por duas vezes, uma de barco e outra de avião, para rever os seus familiares.

O meu pai fez o trajecto inverso, tendo-se deslocado do novo para o velho mundo. Recordo-me, claramente, da nossa primeira despedida e, 7 meses mais tarde, do nosso reencontro. Com 6 anos, viajei com uma mochila cheia de peluches – entre eles, a osita Marta, uma ursa cor-de-rosa, por sinal, inseparável da minha pessoa – com a minha mãe e irmã, na altura, uma bebé rechonchuda de 14 meses. De tenra idade, lembro-me de alguns excertos daquela viagem looongaaa… mas a memória mais intensa dessa época é a da expectativa de estarmos, os quatro, de novo, juntos.

Por ter familiares e amigos em vários pontos do globo, acabei por ter a oportunidade - gosto de pensar nas coisas pela positiva - de participar de vários rituais de espera. Se pudessem medir os nervos que nos assaltam, aquela dorzinha de barriga que aparece nos minutos que antecedem a chegada: “- Está a chegar! Parece ele! Afinal não é. É agora?!” - Os momentos de encontro deveriam ter um botão de pause. Ou, poderíamos conseguir congelar aquele instante e fazer repeat, sempre que quiséssemos. Para quem vive longe das suas pessoas, os reencontros transformam-se em autênticos balões de oxigénio que suavizam a dor da ausência. Por mais tecnologias que surjam, não há nada que substitua o efeito de um abraço. Encontros e despedidas...vida.


«Não sei o que é chegar, porque a minha vida é feita de partidas»
António Ramos Rosa

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sábado, 27 de maio de 2017

O pássaro da felicidade


- Estás com um ar feliz!
- É verdade. Sinto-me feliz, mas não sei porquê. Parece um nó no peito, mas ao contrário! Uma leveza. Uma tranquilidade. Uma paz…
- Nunca ouvi um caso desses. Talvez seja melhor ires a um especialista. Ser feliz assim, sem razão aparente, não é normal!




Adepta do grémio das sestas, como nuestros hermanos, passou pelas brasas com o livro de contos na mão. Acordou, sobressaltada, como quem está na borda de um barco a remos que solavanca, a cada vaga. E, ainda com um olho meio fechado, preserva, em modo pause, a reminiscência do sonho que acaba de ter: um pássaro enorme e colorido – uma espécie de pelicano dos desenhos animados – sobrevoa baixinho a sua casa. Uma imagem nítida combinada com o deslumbre daquele azul do céu. Muito além da aguarela que representava aquele sonho, sobressaía a emoção com que tinha despertado – um bem-estar indescritível.

Demora uns minutos a distinguir a realidade do sonho – episódios de pré loucura, pensou. Há sonhos que se instalam com uma intensidade tal que se torna difícil desentranhar e, por isso, não descansou enquanto não procurou saber o que poderia significar aquilo. Foi, então, vasculhar os livros de interpretação de sonhos da sua avó e descobriu que pássaros grandes a voar eram sinal de bom augúrio, prosperidade e boas novas.

Como se por magia, desde aquele despertar vespertino, descobriu o que era a felicidade. Tinha passado décadas em busca da fórmula química em todos os cadernos e mezinhas; traçava planos para ser feliz, com regra e esquadro, milimetricamente calculados. Na sua cabeça desenharam-se remoinhos, de tantas voltas que dava ao miolo: «vou ser feliz quando…», «ai eu seria tão feliz se…», «só precisava disto para ficar bem…». Faltava, sempre, um ou outro pormenor para atingir aquele estado que alguns privilegiados descreviam como fe-li-ci-da-de. Mas, o que seria isso, de facto? Algo misterioso que lhe escapava das mãos, como grãos de areia, entre os dedos?! A almejada felicidade é conhecida por ser rebelde, tende a dar de fuga quando tentamos encontrar as suas causas, receitas e consequências. Baralhamos o esquema e ela, que gosta de coisas simples, não se deixa apanhar.

O segredo talvez seja esse, pensou: - “não há segredos!”. Viver, simplesmente, como o pássaro grande que abre as suas asas e voa. Agradecer, por mais um dia, por mais um momento, mesmo que não seja tão brilhante como o dos sonhos. 

- É preciso alguma razão para ser feliz? Além de estar vivo?!

E, assim, voltou ao cochilo no sofá, esperando por outro sonho visionário.

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terça-feira, 2 de maio de 2017

Passe pela casa de partida e receba 2000$



Fazer contas de cabeça e esticar, esticar, esticar … até ao fim do mês. Maldito guito que nos moe o juízo. Ainda dizem que o dinheiro não traz felicidade! Sei que não a dá, só por si, mas a sua ausência pode tornar-nos infelizes, isso é certinho. Pelo menos, nas sociedades ocidentais – há outras culturas, mais sábias, que conseguem separar a pobreza da felicidade e essa astúcia fá-las menos sofredoras - em que se teme que a felicidade escape entre os dedos quando não se atinge X número de bens materiais. Fomos, assim, moldados para trabalhar e ter dinheiro! Adquirir, consumir… casas, carros, roupas e afins. Dinheiro na conta, poupado – mesmo que pouquinho - para alguma eventualidade. E, sem ar, entalados ficamos, quando desenhamos castelos no ar, rascunhamos o melhor dos planos e… o raio do carro – o velho cancro que nos leva para quase todo o lado - avaria! Lá fogem mais umas centenas de euros para o mecânico. Ter dinheiro pode não dar felicidade, mas dá liberdade - pode parecer mesquinho dizê-lo. Liberdade para escolher. Liberdade para dizer “não quero mais isto!”, quando não temos pachorra para aturar o chefe autoritário. Liberdade para viajar - como nos filmes – sem ter de saber somar e subtrair, fechar os olhos e comprar uma passagem de avião para qualquer parte do mundo.

Venho de uma casa em que não houve muita fartura. Não que me tivesse faltado nada de substancial, todavia, percebi, desde cedo, o significado do sacrifício. Pela mão dos meus pais, labutantes dedicados, e, para os quais, por circunstâncias diversas, o dinheiro nunca foi propriamente abundante - em alguns momentos, escasso – aprendi que para ter coisas, teria de batalhar. Nada é de mão beijada. E leva tempo! Há uma imagem que conservo na memória que ilustra o instante em que tive a noção do que era o dinheiro: o meu pai a tirar umas notas todas emaranhadas do seu bolso das calças de ganga. Lembro-me de olhar para cima e achar aquilo complicado - não era nada como as notas de “monopólio”, tão fáceis de adquirir, bastava, para tal, passar pela ‘casa de partida’ e recebíamos, automaticamente, 2000$.



Hoje agradeço as lições de esforço e sacrifício. Cada uma delas – e conto com várias – tornaram-me mais resistente aos obstáculos que vão aparecendo. Continuo a encarar o dinheiro como uma ferramenta que me pode dar mais liberdade para viver e aumentar a qualidade da vida dos meus. Porém, sou consciente que o dinheiro não é tudo – outra valiosa lição. Aliás, é mesmo poucachinho quando não existe o essencial: saúde, paz e amor. Já diziam os Beatles: “The best things in life are free”! O dinheiro não passa de um pedaço de papel que nos transforma em escravos e mesquinhos, se o deixarmos. Basta olhar em volta e vemos tantas injustiças!

De vez em quando, gosto de bisbilhotar biografias de personalidades históricas. Embora soubesse que o José Saramago tinha origens humildes, não fazia ideia da sua infância e adolescência em situação de pobreza. Apesar de excelente aluno, Saramago abandonou os estudos regulares por falta de meios e só teve acesso a livros depois dos 19 anos de idade. Com efeito, o sonho de escrever esteve sempre presente e a sua tenacidade fazia com que fosse devorar livros para uma biblioteca municipal, noites a fio, depois das jornadas de trabalho.

Há muitos exemplos bonitos e inspiradores que nos fazem olhar além do… dinheiro. Trabalhar para viver ou viver para trabalhar? Tantas pessoas, pelo mundo fora, continuam as suas batalhas e as suas contas de cabeça. São a inspiração – pelo menos para mim - para continuar a sonhar com a casa de partida do jogo Monopólio (versão oldschool). Com muito trabalho e uma boa dose de sorte, talvez um dia, os dados saiam a nosso favor…

Now give me money
That's what I want
That's what I want, yeah
That's what I want

(In “Money”, The Beatles, 1963)

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Cega, surda e muda

Depois da sessão de natação matinal – a melhor descoberta dos últimos tempos – o rádio apitou uma canção cuja letra me deixou a matutar:

(…) “Fui à escola aprender a estar sempre alerta
E a não confiar em ninguém” (…)
*

Não confiamos em ninguém, ou, simplesmente, desconfiamos, sempre que possível. Um olho no burro e outro no cigano: a chave do sucesso descrito nos guias práticos de como sobreviver, no mundo atual. É isto que ensinamos às nossas crianças?

“Quando fores grande e te mentirem, finge que não percebes. Se vires alguém a ser manipulado, não tens nada a ver com isso. Quando a falsidade cruzar o teu caminho, diz lhe olá, faz amizade com ela e não se esqueças das suas parentes próximas, o cinismo e a hipocrisia, são unha e carne. Tens de ter de reserva, uma segunda cara para as ocasiões - aquele sorriso sarcástico começa a fazer parte da tua indumentária e não consegues sair de casa sem a tua tesoura de corte e costura. Desconfia do amigo do lado, mas nunca abdiques daquela palmadinha nas costas…»


Em suma: temos de ser cegos, surdos e mudos! Vivemos num tempo em que mais do que ser, temos de parecer. Aparentar que não ouvimos barbaridades ou, tendo escutado, mostrar que temos poucos neurónios em funcionamento, e, por isso, não chegamos lá… é difícil entender a mensagem de seres perversos e mentirosos. Está tudo bem! Podemos assistir de camarote a injustiças, mesmo ao virar da esquina, e, em seguida, lavar as mãozinhas como fazia o outro, o Pilatos.

E, acima de tudo, não incomodar. Porque dizer a verdade causa comichão e é uma chatice de primeira! [Eu devo ter faltado à lição em criança… e tenho muita dificuldade em virar cega, surda e muda!]

“Dos filhos marados, dos divórcios passados.
Dos dois mil enterrados na saudade que aperta.
Da escola que é a melhor parte da vida.
Mas só porque a vida é mesmo uma merda.”


("Escola", de Luís Severo)
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