sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Não sei

Não sei o que está para lá das muralhas deste castelo que me coube na rifa. Há dias que custa tanto abrir os olhos e não te ver por cá. Não sei para onde foste, quando cruzaste o muro empedrado. Passaste a fronteira, cedo demais – talvez seja sempre cedo. No entanto, por mais que custe aceitar, não deixa de ser O momento.

Partiste num dia de Inverno. Será que te apercebeste que tinha chegado o fim? Terás visto a tal luz ao fundo do túnel – dizem que se vislumbra a vida em flashes. Imagino que, com o avanço da tecnologia, esse portal para o outro mundo tenha também evoluído e que os formatos sejam, hoje, mais sofisticados. Quem sabe, uma tela gigante na qual se projecta um slide show com os melhores momentos – uma espécie de best of. Se a passagem assumir contornos profissionais, não pode faltar uma banda sonora à altura.

Desafio#04 (Nuno Galante)

Não sei o que está do outro lado desta coisa a que chamamos vida. Viver é insólito, até mesmo quando tudo acaba e não se faz a menor ideia do que sucede a seguir. O que acontece a quem atravessa o paredão, nos derradeiros dias? Há quem diga que não haverá nada mais e, assim sendo, somente um precipício, no qual não se avista o fundo. E silêncio. Uma quantidade infinita de silêncio.

Por mais controladores e controlados que sejam os dias, por mais certinho ou desvairado que seja o percurso, por mais moedas de ouro que se conservem ou que se estoirem, no final, ninguém escapa. Além disso, a passagem é solitária, não se pode levar um acompanhante para segurar as tochas que clareiam o caminho.

O que fazes aí, do outro lado? Não sei como passas os dias, longe de nós - tantas perguntas sem resposta, tanta saudade sem consolo. Não sei. E quando não se sabe o que acontece, pode-se imaginar, certo? - tudo cabe na mochila do imaginário. Há dias, por acaso – nada é por acaso – tropecei num dos vídeos do documentário “Human”* que me deixou arrepiada com a naturalidade com que um homem que tinha enviuvado há pouco tempo se referia à morte da esposa: - “A minha mulher mudou-se para o céu!”. Sem dramas, como se tratasse de uma simples alteração de residência. E não será apenas isso?

- Num refúgio bonito e cheio de paz é onde te imagino. Não sei…


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Deixa tudo para trás!

Deixa tudo para trás e não vires a cabeça. Adiante é a mirada, mesmo que o caminho tenha acentuadas curvas. Deixa para trás o que não queres, o que não sentes. Deixa para trás a frustração dos dias enormes em que o gesto entediante de olhar para o relógio prolonga a duração das horas e dos minutos.

Desafio#03 (Tatiana Salvador)
Autoria da fotografia: Sandra Neto

A vida passa, os anos correm (ou voam!) e de repente…já foi! E não deixaste tudo para trás. Não foste vingar a tua missão – tens uma, sabias?! O que gostas realmente de fazer? O que te dá pica? - sabes a que me refiro?! Ao bichinho que temos cá dentro e que há que alimentar, sob pena de nos reduzirmos a uns seres medíocres. Falo daquilo para que tens vocação na vida e que te dá um friozinho na barriga – as tais borboletas no estômago que todos falam. Será pintar?! Então, vai buscar as tintas e os pincéis que tens esquecidos no sótão e acaba esse quadro que está à espera que te tornes o próximo Picasso. Ou talvez menos, não importa. O resultado, em si, pouco interessa, comparando com o gozo que dá a batalha pela conquista dos teus objetivos – não os do vizinho do lado, não tens de andar a reboque dos sonhos alheios.

Às vezes, ficamos suspensos na névoa de não sabermos quem somos. De não sabermos quem queremos ser e de nos confundirmos com as ideias do rebanho. Nessas alturas, talvez pareça que o mundo não nos sabe dar o valor merecido e que o olhar dos outros não é sensível, o suficiente, para nos acolher.

Mas tu podes deixar tudo para trás. Podes seguir em frente, arriscar, espreitar o que está no atalho seguinte. E, se não for melhor por aí, tentas o trilho mais comprido. Há que perseguir o horizonte - o teu. Aquele que te aparece entre sonhos e acordares em noites de lua cheia; o mesmo que o pássaro verde te sussurra ao ouvido, nas caminhadas ao pôr do sol. O essencial é não perder o rasto do sonho e seguir em frente, como dizia Martin Luther King:

“Se não puder voarcorraSe não puder correr, ande.
Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.”


Deixa tudo para trás. E, quando sentires que tudo vai dar certo…sorri!


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#03). A fotografia fornecida por Tatiana Salvador serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   

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terça-feira, 5 de setembro de 2017

O que aconteceu ao menino Giosué?!

[O amor faz a vida bela]

Recordo-me que fui ver o filme «A vida é bela» ao cinema 2002 – uma daquelas velhas salas de cinema que hoje são consideradas autênticas peças de museu, já que somos obrigados a assistir a filmes em shoppings centers cheios de modernices e publicidades – no final dos anos 90. Ficou-me, também, na memória, o discurso inflamado do Roberto Benigni na noite dos Óscares. Penso que será um dos filmes mais marcantes da História recente do Cinema, pela abordagem diferenciada de um acontecimento, tantas vezes retratado em obras da sétima arte: a segunda guerra mundial. Trata-se de um drama – uma das piores tragédias que o ser humano vivenciou – que é contada, em muitos momentos da película, em formato de comédia e de algum suspense. O tom com que vai sendo revelada a narrativa, permite-nos encarar uma realidade dura e pesada como os campos de concentração sob um outro prisma, apesar de não ser possível esquecer – nem devemos fazê-lo - os horrores que aqueles cenários representaram para a Humanidade.

Além da mensagem do filme que permanece viva, muitos anos volvidos da sua estreia – e depois de tê-lo visionado meia dúzia de vezes mais - há uma pergunta que não me sai da cabeça: «O que terá acontecido ao menino Giosuè?!». Cismada com essa questão, decidi, há dias, rever a última cena em que a criança sai do esconderijo e é posta em segurança pelas tropas dos Aliados, reencontrando a sua mãe (após a morte heróica do pai). Em seguida, o filme termina e ficamos sem saber o que lhe terá acontecido. Como terá sido a vida do Giosuè? Terá transformado a sua experiência em ódio e vingança? Terá alimentado, dentro de si, a amargura e o ressentimento, naturais em contextos limite de guerra, xenofobia e racismo como o da Alemanha Nazi? Haverão inúmeras possibilidades – eventuais sequelas – mas no meu imaginário, a vida seguiu de uma forma exemplar.


Desafio#02 (Daniela Vieira)

Giosuè terá crescido com a sua mãe, forte e saudável. Tornou-se um adulto justo, consciente dos reais valores da vida. Em todo o seu percurso, o lado positivo sobressaiu, já que depois de ter passado por um campo de concentração, os problemas da vida rotineira se tornaram demasiado banais. Aprendeu, desde muito cedo, a relativizar – um dos trunfos para a felicidade. Tudo o que Guido (o pai) lhe ensinou – metaforizado naquele jogo dos 10 pontos – foi surgindo, oportunamente, na sua vida, tendo feito do sentido do humor, o seu verdadeiro aliado. Giosuè, em homenagem ao seu pai, fez com que a sua vida fosse genuína e simplesmente bela.


Obrigada Giosuè, Obrigada Guido, por me continuarem a inspirar, até hoje. Por me mostrarem que a vida é cheia de coisas boas e más e que temos de seguir em frente, da melhor maneira que conseguirmos. Nunca perdendo a esperança de lutarmos por um mundo mais justo, tolerante e…belo.


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#02). A ideia do filme «A vida é bela» de Roberto Benigni (1997) fornecida por Daniela Vieira  serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Paralelismos solitários

Nada parecia tão triste, como aquele cenário de fim de tarde, em que os sonhos se evadiam por entre o pintalgar das pegadas de gaivotas. Desenhavam-se, ali, centenas de caminhos - muitos deles sem destino.

Nem sempre os sonhos se cruzam. Alguns permanecem paralelos e jamais se tocam. E, nesse dia, o encontro afigurava-se difícil para os três – que aparentavam uma multidão num areal imenso. Sabiam uns dos outros, mas não se assomavam pela janela da empatia. Custava-lhes viver, cada um com as suas dores.

Havia momentos em que eram sugados por uma força que lhes entupia o peito e os deixava roxos, por falta de ar. Talvez fosse efeito da solidão, uma velha e imponente senhora que assumia o comando, nos instantes mais inesperados, não se conhecendo quem lhe fosse completamente imune.

Desafio#01 (Adriana Oliveira)
Autoria da fotografia: Adriana Oliveira

Presas fáceis da solidão costumam ser as pessoas de idade avançada – mais vulneráveis à sua presença porque os mais novos, por vezes, não têm remorsos. Contudo, não é preciso chegar a velho ou estar no meio do deserto para reconhecer a dita. É sabido que pode atacar qualquer um, mesmo quando o corpo se encontra no meio de um magote entusiasta – aí cai-nos quem nem pedra em estômago vazio.

A solidão, muito mais do que um estado ou um momento, será, porventura, um dos sentimentos mais difíceis de explicar. De facto, ninguém consegue perceber o quão angustiante pode ser, até ao dia em que a experiência chega de malas e bagagem. E quando isso acontece – independente da idade, classe social ou estado civil - torna-se verdade a frase de Victor Hugo: - «Todo o inferno está contido na palavra solidão».

O sol pôs-se e os três voltaram para casa, a apalpar terreno entre as dunas. Talvez continuem a caminhar em paralelo, cada um no seu pequeno mundo. Ou, por milagre – a vida não deixa de sê-lo - quiçá as linhas do destino se intersectem, nem que seja por uma só vez.



Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#01). A fotografia fornecida por Adriana Oliveira serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   

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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A casa jardim

Uma casa branca, não muito grande, à beira da estrada. De todas as vezes que por ali passava, lembrava-se, automaticamente, da sua mãe. Não lhe conhecia os donos, nem fazia ideia de quem lá poderia habitar. Conseguia observar melhor o seu aspeto quando fazia o trajeto de baixo para cima, pois o ângulo revelava-se mais apropriado à visualização daquele canto que parecia um autêntico jardim, de tantas flores que brotavam. Mal se via o cimento que suportava o edifício e a arquitetura era, em si mesma, uma panóplia de cores da natureza, em que sobressaía o verde. Rosa, roxo, vermelho, amarelo eram outras cores que formavam a paleta de um quadro tão bem desenhado.


[Autoria da fotografia: Tatiana Salvador]

Consumiam-lhe a curiosidade questões como: -“Quem viveria ali?” ou “Como se serão as suas rotinas?”. Na sua ideia, haveria de ser alguém - ou alguéns - muito dedicado porque aquele cenário exigia tempo e amor. Dentro do seu carro, frequentemente absorvida pelos gritos de liberdade - sobretudo ao final do dia - gostava de idealizar mundos diferentes, voar alto e sonhar …. Num desses almejos onde realmente TUDO era possível – na terra dos sonhos podes ser quem tu és/ninguém te leva a mal* – olvidou os limites da razão, os quais a fariam recordar que a mãe tinha falecido há muitos atrás. Soltou as rédeas do coração e, por breves momentos, imaginou que quem poderia habitar a casa jardim, seria a sua mãe. Era o contexto perfeito para uma pessoa como ela, sem dúvida.

A morte é uma loucura tão insana que, mesmo passado décadas, continua a parecer mentira - quem já perdeu alguém, sabe bem do que se trata. Havia instantes em ela que via na rua, mulheres de cabelo preto, e por uma fração de segundo, achava que poderia ser a sua mãe – como nos filmes, certo?! – creio que até ao mais racional e céptico dos homens este fenómeno terá acontecido. Por isso, imaginar, por curtos instantes, que a sua mãe poderia viver naquela casa, não se afigurava disparatado de todo.


Dali em diante, tomou como ritual diário – íntimo e inconfessável - os 20 segundos em que podia observar a casa jardim e deslumbrar toda a vida contida. O que resultava engraçado é que nunca tinha ponderado, sequer, parar o carro e andar a pé pela zona – poderia conseguir ver alguém. Nunca o fez nem queria fazer, talvez porque isso fosse quebrar a magia. Ela preferia acreditar que a sua mãe estaria ali, em paz, a regar as suas plantas no cenário mais pacífico e bonito do mundo. E continuar a crer que, sempre que passava naquele lugar, por breves instantes que pareciam infinitos, as suas almas se voltavam a cruzar.

 *Canção “Na terra dos sonhos” de Jorge Palma

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Retrato de uma espécie rara

Confesso que não me apraz a ideia da exposição pública que, atualmente, as redes sociais vieram alimentar. Faz-me alguma confusão as múltiplas demonstrações de amor super apaixonadas, distribuindo fotos, momento a momento, para que não se perca pitada dos jantares românticos e das prendas trocadas – como se estivéssemos todos numa série de televisão. Em muitos casos, no minuto seguinte, os tais apaixonados estão separados e, mais uma vez, voltam ao facebook para lavar a roupa suja - quais tanques do antigamente. A tecnologia trouxe coisas maravilhosas, tantas, tantas… porém, algo de menos positivo também veio com ela. Creio que contribuiu para emburrar o ser humano nas suas relações sociais - nessa reflexão, sinto-me uma felizarda por ter nascido nos anos 80 e ter crescido sem internet, sem selfies e sem registos digitais descontrolados e incontroláveis.



Hoje faço uma exceção e abro um pouquinho o livro das selfies domésticas. Parece que faz anos – não posso dizer quantos - uma espécie rara cá de casa. Não tem perfil de Facebook, Instagram, ou Twitter – será que esta pessoa existe mesmo ou não passa de imaginação minha?! O seu telemóvel atesta a sua falta de apego à inovação, uma vez que continua a usar um modelo Nokia à prova de quedas – os mais resistentes! Não é nenhum homem das cavernas ou um info excluído - termo erudito usado para apelidar os homens e mulheres que não estão em contacto com a tecnologia – e revela-se um utilizador altamente proficiente dos meios tecnológicos – quando necessita deles. É, sem dúvida, um dos aspetos que mais admiro: não aceita ser refém da máquina, mas consegue fazer um bom uso da mesma, quando a situação assim o exige. A vida faz-lhe mais sentido se for no contexto da natureza – houve uma época em que viveu numa cidade cosmopolita e veio de lá com sintomas de ressaca do campo e das paisagens de montanha. É no meio da floresta que é mais feliz e, se possível, em volta dos seus mais que tudo – os cogumelos. Esses chegam a causar-me algum ciúme – sou uma miúda um nadinha ciumenta – pois consomem grande parte da sua atenção – sobretudo no outono, quando eles abundam. A minha sorte – e creio que também a dele – é ter descoberto, nos últimos anos, que gosto mais da natureza do que imaginava e da inspiração que traz ao meu dia a dia.
            
Genuinidade talvez seja a característica que mais aprecio nesta espécie rara. Não inventa, nem aparenta. Apresenta-se tal como é, simplesmente. Nem sempre é fácil de lidar com a sua maneira de ser, uma vez que a marretice é o seu nome do meio. É um leão de signo e na vida - um guerreiro em busca do horizonte, que vai revelando a sua generosidade. Inteligente e sensível, mas nada lamechas – essa parte fica para mim. Tem um talento inato para a culinária e faz-me tão feliz pelo estômago! – bem diziam os nossos antepassados. Gosta de expressar os sentimentos à moda antiga – sem selfies ou fotos no facebook para a cusquice alheia. O que interessa, o que realmente importa é a vida que vivemos – fora dos ecrãs que nos consomem os olhos e a mente. O amor à prova de balas e de distâncias, pois dizem que quando é amor é mesmo assim. E eu acredito.


P. S - Parabéns, meu amor. Muita saúde e paciência para me aturares com alegriaJ

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Quando é que nos tornámos adultos e o mundo ficou sério demais?!


“ (…) Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções.”
(Afonso Cruz, In O Pintor Debaixo do Lava-Loiças)

Numa viagem que fiz recentemente, voltei ao velho vício de ouvir conversas alheias - desta vez, a prosa não se revelou tão deliciosa como em outras ocasiões. Comecei a escuta por um mero acaso, talvez por me tentar distrair da cavaqueira mental que me absorvia. Chamou-me a atenção o discurso monocórdico e formal de uma rapariga – não sei precisar a idade, mas não teria mais do que uns 18/19 anos – que se assumia, altivamente, como a monitora de um grupo de crianças – catequese ou algo do género. Um sermão de cariz petulante, pseudomoralista e, sobretudo, chato, destinado a miúdas de 9/10 anos, fez-me virar a cabeça para trás várias vezes, no sentido de confirmar com os olhos, a impressão do que estava a captar com os ouvidos. Tratava-se, sem dúvida, de uma imposição patética de quem tem uma meia dúzia de anos a mais e pensa que sabe tudo sobre a vida: - «para a próxima teremos de ter outros critérios de seleção de quem vem ao convívio!». Fez-me lembrar a arrogância das praxes académicas em que os alunos do 2º aluno exigem ser apelidados de «doutores» pelos caloiros que são tratados abaixo de cão, literalmente.


[Autoria da imagem: Adriana Oliveira]
Agarrei-me à cadeira, e vi que os dois rapazes da fila ao lado apresentavam a mesma expressão estupefacta do que eu em relação à insolência daquela pirralha. Apeteceu meter-me na conversa – na realidade era um monólogo em tom de ditadura - mas contive-me. Olhei pela janela e como estava quase a chegar ao destino, tentei abstrair-me, o que se revelou impossível porque fui interrompida por um sussurro estranho, de difícil perceção – em pleno autocarro, a tal rapariga estava a rezar o terço em voz alta. Pensei que estaria a ouvir mal e fiz questão de confirmar – ‘Avé Maria…’. Era real, estava mesmo acontecer! Estava a rezar, muito concentrada, imediatamente depois de um episódio que poderia ser apelidado de tudo, menos de compaixão pelo próximo. Obviamente que aqui não é criticável a profecia religiosa, apenas o paradoxo de comportamentos revelado.

Saí do autocarro e fui à minha vida - como vamos todos. Não sei como terá terminado o filme do sermão dos peixes que assisti naquela tarde. A rapariga aparentava demasiada amargura para tão pouca experiência de vida. Espero que, mais cedo ou mais tarde, ela possa cair em si, e não queira ser adulta, antes do seu devido tempo. O mundo gira depressa e, quando damos por ela, já está sério demais. Ela pensa que sabe tudo; no entanto, desconhece, seguramente, que se só a essência de quando somos crianças nos pode preservar quando a dureza da vida nos quer levar por diante.

Na infância, somos exímios em viver o presente – mesmo quando não vivemos, exatamente, no melhor dos cenários. Temos a capacidade única de meter os problemas em gavetas e desfrutar do que nos dá prazer, ao máximo. À medida que o tempo passa, tornamo-nos menos capazes. Ficamos reféns da zaragata mental que nos manipula a olhos vistos. Esquecemos o toque da areia molhada nos nossos pés, quando nos enterramos completamente nas brincadeiras dos dias longuíssimos de praia. Deixamos de lembrar o quão maravilhoso é saltar em cima das camas – à revelia dos pais - e achar que vamos morrer de cócegas. Pensamos que vamos mesmo morrer a rir – e se isso acontecesse seria tão bom, não?!

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