quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Sou (somos) uma pessoa cheia de sorte, afinal.

Não pára de chover e o vento faz questão de marcar, agressivamente, a sua presença. Um dia feio – bem sei que fazem falta, dias destes, mas não deixa de ser desagradável. Nos filmes, os dias cinzentos costumam ser os cenários perfeitos para acontecimentos trágicos, bizarros ou atrozes. Na vida real, tudo pode acontecer, de bom ou de mau, seja qual for a condição meteorológica.


Celeste, Daniela, Marta


Há 21 anos atrás, o dia não era de chuva; recordo-me que estava frio. Daqueles dias em que sabe bem caminhar pela rua e levar, nas costas, com os suaves raios de sol. Nunca me esqueci da sensação que tive ao longo daquele dia, tudo corria bem – há alturas assim, em que estamos cheios de energia, frescos e fofos. Estaria, eu, por isso, longe de imaginar que as horas seguintes me reservariam a mudança mais radical da minha vida.  Não havia tempestades cá fora, nem relâmpagos. O anoitecer aparentava tranquilidade – mais uma noite como qualquer outra. Ora, os trovões acabaram por surgir, internamente, e instalaram-se no nosso mundo, de forma definitiva.

Apagou-se a tua luz na madrugada de 9 para 10 de janeiro de 1997. Durante algum tempo, a sensação de que se tratava de um pesadelo andou colada a mim. Parecia que não conseguia acreditar na realidade. A realidade de quem, de um momento para outro, fica sem mãe. A realidade de uma família que tem de reaprender a viver, a começar do zero; um percurso de luto que tem avanços e recuos.

Vivi (vivemos) a maior parte da vida sem ti – estranho! Faz mais tempo da tua ausência do que a duração da tua presença física nos nossos caminhos. Tinhas tanto para ver, ainda! Merecias ter vivido mais - mas quem sou eu para dizer isto? Agora sou adulta - e depois de um longo processo introspectivo – consigo aceitar que há mistérios que nunca serão explicados e que a morte faz parte da vida. Tenho, assim, a consciência de que a morte não é o pior de tudo.

Hoje sei que a maior tragédia de todas é a falta de amor - dessa dor, nunca sofri, muito pelo contrário. Continuo a sentir-me viva e intensamente amada por ti, mãe. A tua herança está presente nos meus dias, nas minhas rotinas, na minha maneira de me dar aos outros. Estás comigo, sempre e para sempre.


E, pelo teu amor, sou (somos, eu e a Daniela) uma pessoa cheia de sorte, afinal.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Há sempre uma folha em branco à minha espera

O vazio, além de nada, é tudo - um tudo cheio de possibilidades que se amontoam na esperança de se tornarem alguma coisa. Gosto, particularmente, do vazio das folhas do meu caderno que chama por mim, com ansiedade, para mais um texto. Temos uma relação estranha, eu e as folhas do caderno: por um lado, não as quero deixar em branco demasiado tempo, já que andam, permanentemente, inúmeras ideias a magicar dentro da minha cabeça; por outro, é maravilhoso ter tudo em aberto e vislumbrar o momento em que um texto nasce, a partir do zero.

Não sei para onde vou quando escrevo. Mas sei que quero, sempre, regressar a esse lugar. Creio que me encontro quando bato à porta da criatividade, vem à janela a memória, e tudo se mistura de forma colorida. Dou a mão às palavras, deixo-me levar de olhos fechados - sem controlar nada – e nesse ritmo, vamos, alegremente, dançando a valsa das histórias que quero (ou necessito) contar ao mundo.

Autoria da Fotografia: Nuno Galante

No meio dos dias cinzentos e das azáfamas associadas às festividades - há uma pressão para sermos imensamente felizes - eu sofro, ainda mais, pondo em causa tudo o que me rodeia. A paciência esgota-se com bastante facilidade e sinto falta da meditação regular – tenho-me andado a baldar, nas últimas semanas. Corro, desesperadamente, em busca do meu caderno e a paz abraça-me, por breves instantes – é o suficiente para sentir que posso retornar ao estado de equilíbrio. Careço de silêncio, o verdadeiro – descobri que se trata de um bem escasso e pretendo praticá-lo mais, no próximo ano. Talvez ceda demasiado à tentação do falar, falar, falar…

Escrever será, por isso, o único desejo que digo, em voz alta, para 2018. Representa um desejo em forma de promessa e que traduz uma necessidade inata à minha maneira de ser. No ano que agora termina, posso contar mais de 25 novos textos publicados no Celestices, alguns deles, resultantes de desafios lançados por amigos que fazem questão de alimentar este meu sonho antigo. Às minhas pessoas que estão sempre dispostas a ler os meus rabiscos e que me encorajam a ser quem sou, a minha enorme gratidão.

No sentido de começar, desde já, a praticar a gratidão, em vez de pedir muitos desejos, este ano, porque não, fazer o contrário?! Estou inclinada a pensar algo diferente, desta vez: começando no dia 1 de janeiro, apontar cada ganho ou vitória e guardar esses papelinhos num frasco/caixa. Daqui a um ano, poderei abrir o frasco e verificar quantos motivos terei para agradecer. Que tal?



Um bom ano 2018. Com folhas em branco e muitos pequenos tudos para agradecer…


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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tempo, Tempo, Tempo…

Se tivesse jeito para charadas, diria que se trata de algo que não se vê, não se pode tocar, mas está sempre presente. Relativos são a medida e o peso que lhe depositamos consoante os contextos: queremos que passe depressa quando o tédio se apodera de nós; outras vezes, desenvolvemos o anseio que não passe jamais para que possamos congelar a imagem dos bons momentos. Tempo…
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
…*

Esta palavra mágica consome-nos os dias. Com o passar dos anos, o tempo foge entre os dedos - do carnaval ao natal é um esfregar de olhos. Quando damos por ela, já passaram 5, 10, 20 anos… estamos na idade adulta e nem queremos acreditar que a velhice está à nossa espera, ao virar da esquina. Pelo meio, bate-nos à porta uma coisa chamada relógio biológico e o tempo ri-se às bandeiras despregadas.  

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho…*



Desafio#09 (Vanda Santos)
Imagem: Relógios moles (Salvador Dali, 1931)


Imagino o tempo como um senhor de idade, tranquilamente refastelado, num cadeirão de madeira, a ver passar as marchas, sabendo que é odiado e desejado por todos os habitantes da Terra. Há alturas, em que se mostra um convencido de primeira, deixando-nos, profundamente augados: rogamos-lhe mais e mais pelos nossos porque nunca se afigura suficiente.

Vou -te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo*

Dizem que o tempo não perdoa e passa para todos – mesmo para aqueles que insistem em negar a sua existência. Queixamo-nos, em demasia, dos sinais que nos vai deixando – as rugas, os cabelos brancos, as dores nas cruzes – e desdenhamos o seu papel, não nos dando conta de que representa a nossa tábua de salvação. Revela-se o nosso melhor amigo – o único que nos ajuda a lamber as feridas como deve ser. Assume o poder de tornar as dores suportáveis, as crises superáveis. Alimenta-nos. Conforta-nos. Transforma-nos.
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo…*

Acredito que há um tempo para tudo ou, como dizem os antigos: - ‘cada coisa a seu tempo!’ Não vale a pena forçar a barra porque o tempo costuma ser um menino marreta e fornece as respostas - as tais que tanto procuramos – na altura certa. Faz-nos pacientes, resilientes e capazes de aceitar o sentido das voltas do destino – mesmo quando parece que só resta ausência de significado.
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo…*


P.S. – Como é Natal e, em modo de oração, peço-te a ti, Tempo, que passes rápido, no caso das esperas pelos abraços tão desejados e que te congeles, nos instantes em que a felicidade me bater à porta.


*Inspirado na Canção “Oração ao Tempo”- Letra e música de Caetano Veloso, 1979.


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#09). O ponto de partida foi a lenga-lenga "O tempo perguntou ao tempo: quanto tempo o tempo tem?/ O tempo respondeu ao tempo/ que o tempo tem tanto tempo/quanto tempo o tempo tem" fornecida por Vanda Santos.  
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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lixo extraordinário

Seria impossível não me emocionar com o documentário Lixo Extraordinário (2010, direção de Lucy Walker). Embora seja uma pessoa de lágrima fácil, neste caso, a emoção ficou retida durante a hora e meia de duração da fita – só no final, os olhos humedeceram. As minhas lágrimas - de alguém confortavelmente sentado no sofá da sua sala – resumem-se ao ridículo perante o confronto com a crueza da realidade vivida pelas pessoas que protagonizam o filme. Senti-me eu, pequenina e, por vezes, mesquinha, quando me queixo dos meus problemas. Há pessoas que se revelam autênticos heróis pelo simples facto de continuarem a sobreviver enquanto as cartas do destino ditam a sua infortuna, dia após dia. E, no meio de tanto desespero, conseguem sorrir como ninguém.


Este documentário fez-me pensar em muitas coisas. Há tanto para fazer, tanto para mudar … Vivemos num mundo em que é mais fácil usarmos umas talas e não olharmos para o lado. Já dizia o velho ditado “Cada um tem o que merece!” e parece que o mundo inteiro se convenceu disso para tapar o sol com a peneira. Há dias, alguém que eu conheço confessava que não gosta desta expressão, o que me fez refletir, também. Talvez se trate de mais um julgamento sem critério, uma meritocracia calculada com medidas desajustadas. O mundo é redondo e nem sempre se pinta a preto ou branco, a maior parte das vezes, aparenta um cinza difícil de definir. 

Hoje em dia são acentuadas as diferenças, não numa perspectiva de valorização, mas como uma forma de exclusão social. Há pessoas que se julgam superiores porque usufruem de um nível de vida elevado - a condição material assume um patamar de excelência e fornece trunfos. Deixamos de olhar o ser humano como uma vida, independente da sua origem ou estatuto e passamos a classificar, hierarquicamente, os membros de uma comunidade. Em determinados locais do planeta, esse aspeto se revela mais evidente, havendo uma distinção entre cidadãos de primeira e de segunda e, ainda, uma categoria de não cidadãos - os tais que quase não existem porque estão à margem do que seria esperado.

No documentário “Lixo extraordinário”, o artista plástico Vic Muniz sai do conforto do seu estúdio em Nova Iorque e arregaça as mangas para mudar o mundo de algumas pessoas - e consegue. De origens humildes, não perdeu a simplicidade depois de se tornar um dos artistas brasileiros com mais sucesso, internacionalmente. Expressa, sem pretensões, a sua generosidade na ligação que estabeleceu com os trabalhadores do maior aterro do mundo, tratando-os, de igual para igual. O resultado é surpreendente, quer do ponto de vista artístico – murais elaborados a partir de retratos dos “catadores” e recorrendo a materiais do lixo – quer da perspetiva sociológica.


A não perder! 


Nota: O documentário completo está disponível nesta ligação.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Viver sem medo

O desafio, desta vez, consistia em refletir sobre uma fotografia atual do local onde ocorreram os atentados do 11 de setembro de 2001. Tive oportunidade de visitar aquele espaço, antes e depois do acontecimento. Impactante, arrepiante, inesquecível.

Não poderá ser esquecido como uma tragédia nunca o será – e, de lá para cá, infelizmente, houve tantos outros atentados, nos variados pontos do globo. Muitos deles, nem fazemos ideia de que sucederam porque a comunicação social não lhes confere valor e, por isso, não são mote de abertura de telejornais. As reportagens alargadas com todos os ângulos de um acontecimento fatídico só se materializam quando as vítimas dizem respeito ao Ocidente e ao chamado primeiro mundo – isso daria um outro texto.

Como todos sabemos, a responsabilidade dos ataques às Torres Gémeas foi atribuída à organização fundamentalista Al-Qaeda e ao seu líder Bin Laden. O que menos se aborda é a atitude do mundo ocidental e, em particular, dos Estados Unidos, no que se refere ao incremento do sentimento anti islamita e discriminatório. Não será esse, também, um dos ingredientes para alimentar o clima de terror que se seguiu a 2011 e o qual se tem vindo a intensificar, nos últimos anos? Estudos realizados no âmbito dos piores atentados recentes comprovam essa teoria, uma vez que indicam que 1 em 4 terroristas frequentaram universidades ocidentais, estando, desse modo, integrados na sociedade no momento em que decidem tornar-se militantes de organizações terroristas.


Desafio#08 (Magda Fonte)
Autoria da Fotografia: Magda Fonte

Por considerar que um evento desta magnitude engloba variáveis demasiado complexas – e, muitas delas, desconhecidas do público em geral - escrever sobre o 11 de setembro representa, para mim, um autêntico desafio porque gosto pouco de me tornar cliché – bastante tinta correu nos últimos 16 anos. Mais do que debater o contexto, importa honrar o ser humano, elevando um respeito absoluto por todas as vidas que se perderam naquele dia. Gostaria de destacar, assim, o monumento de homenagem construído no antigo World Trade Center, no qual podem ser lidos os nomes das vítimas mortais 9/11 Memorial & Museum.

Cada nome gravado naquele mural representa muito mais do que um conjunto de letras, ou de uma identidade. Cada nome reporta a um mundo único que deixou de existir, de um instante para outro. Alguém que deixou sem mundo as pessoas que o amavam. A propósito disto lembrei-me, de um filme que vi há uns anos - «Extremamente alto, incrivelmente perto» - que conta com as interpretações de Tom Hanks, Sandra Bullock e o jovem ator Thomas Horn. Esta película aborda a temática do 11 de setembro como pano de fundo, tocando, de uma forma peculiar, o essencial de uma tragédia: as perdas. O processo de luto e o vencer dos medos sob o ponto de vista de um menino, muito especial, que ficou sem pai.

Inspirando-me na ideia do filme, a mensagem a reter talvez seja a de não permanecermos reféns do pânico, não obstante as marcas irreparáveis que se instalaram - há um antes e um depois do 11 de setembro. Viver sem medo será a melhor homenagem aos que partiram. Porque o medo nunca poderá sair vencedor…


“No day shall erase you from the memory of time”

(Virgil)


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#08). A fotografia fornecida por Magda Fonte serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto. 
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domingo, 19 de novembro de 2017

Viagens que se perdem no tempo: uma ode à amizade

Era uma manhã de outono – um típico amanhecer daquela estação do ano que a fazia lembrar a sua infância – em que o sol espreitava timidamente. Contudo, luminoso, o suficiente, para destacar os tons marron e encarnados das folhas das árvores. Acordava cedo, desde pequena, mas com a idade, esse hábito tornara-se uma imposição. Ia encontrar-se com a sua velha amiga para almoçar e esperavam-na horas de conversa non stop – como antigamente. O tipo de encontros que parecem “viagens que se perdem no tempo”, tal a sintonia entre as duas almas.


Desafio#07 (Susana Lemos)
Autoria da fotografia: Sandra Neto

Há coisas que nunca mudam e, afortunadamente, algumas pessoas ficam para sempre. Com a sua velha amiga, ela conseguia falar de quase tudo – existe um quase, impenetrável, que permanece escondido num cantinho do coração. Diz-se que à medida que o tempo passa, mais importantes se revelam as conexões com as pessoas que nos conhecem desde jovens. As tais com quem não precisamos de inventar porque nos sabem ler como ninguém, como evoca a canção: “E dizes-me a cantar é assim que eu sou”- maravilhoso é podermos ser, simplesmente, quem somos e sermos amados por isso (ou apesar disso!).

Saboreava, delicadamente, o vinho escolhido para a ocasião – um dos seus maiores prazeres – enquanto escutava as novidades da sua amiga. Eram seres com vivências distintas, mas partilhavam a visão da vida e os valores que consideravam fundamentais. Pelo meio dos temas que se enredavam uns nos outros – talvez fosse necessário um guião – recordavam, em modo de filosofia, a mensagem da canção de Pedro Abrunhosa: “a vida são dois dias e um é para acordar” – muitas vezes, não nos apercebemos do real significado deste verso. Só é possível fazê-lo, quando estamos despertos para o mundo e isso leva tempo - o tempo de cada um.

A amizade, para ela, consistia num porto de abrigo que consola os “olhares que trazem solidão”. A cada ano que passa, mais frenéticas se mostram as exigências da vida adulta e menos fácil se torna alimentar os reencontros. Com efeito, como em todas as relações que se constroem a duas (ou quatro) mãos, há que investir tempo e esforço para que seja possível manter o contacto. Ela fazia questão de levar a sério essa tarefa, uma vez que o retorno se transformava num estado de paz de que não era capaz de abdicar.

“Já vai alta a noite” – o dia passou rápido demais - e estava na hora de voltar a casa. Despede-se da sua amiga até uma próxima ocasião e, tal como um camelo acumula água nas suas bossas para os períodos de seca, também ela tinha carregado as suas reservas de energia para os maus momentos. O seu coração está cheio.


Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#07). O ponto de partida foi a canção  «Viagens»  de Pedro Abrunhosa fornecido por Susana Lemos.

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Texto en Español

Era una mañana de otoño - un típico amanecer de aquella estación del año que le hacia acordar de su infância – y el sol saludaba tímidamente. Sin embargo, suficiente luminoso para destacar los tonos marrones y rojos de las hojas de los árboles. Acordaba temprano, desde chiquita, pero con la edad, esa costumbre se había convertido en una imposición. Se iba a encontrar con su vieja amiga para almorzar y la esperaban horas de conversación no stop - como antiguamente. El tipo de encuentros que parecen "viajes que se pierden en el tiempo", tal la sintonía entre las dos almas.

Hay cosas que nunca cambian y, afortunadamente, algunas personas se quedan para siempre. Con su vieja amiga, ella podía hablar de casi todo - existe un casi impenetrable, que permanece escondido en un rincón del corazón. Se dice que a la medida que el tiempo pasa, más importantes se revelan las conexiones con las personas que nos conocen desde jóvenes. Esas con quien no necesitamos inventar porque nos saben leer como nadie, como evoca la canción: "Y me dices al cantar es así que soy yo" - maravilloso es poder ser, sencillamente, quién somos y ser amados por eso (o a pesar de eso!).

Saboreaba, delicadamente, el vino elegido para la ocasión - uno de sus mayores placeres - mientras escuchaba las novedades de su amiga. Eran seres con vivencias distintas, pero compartían la visión de la vida y los valores que consideraban fundamentales. Por el medio de los temas que se enredaban unos en otros - tal vez fuera necesario un guión - recordaban, en modo de filosofía, el mensaje del tema de Pedro Abrunhosa: "la vida son dos días y uno es para despertar" - muchas veces, no nos damos cuenta del verdadero significado de este verso. Sólo es posible hacerlo, cuando estamos despiertos al mundo y eso lleva tiempo - el tiempo de cada uno.

La amistad, para ella, consistía en una contencion para las "miradas que traen soledad". Cada año que pasa, más frenéticas se muestran las exigencias de la vida adulta y menos fácil es alimentar los reencuentros. Como en todas las relaciones que se construyen a dos (o cuatro) manos, hay que invertir tiempo y esfuerzo para que sea posible mantener el contacto. Ella se preocupaba de tomar en serio esa tarea, ya que el retorno se convertía en un estado de paz que no era capaz de abdicar.

"Ya va alta la noche" - el día pasó demasiado rápido - y era hora de volver a casa. Se despide de su amiga hasta una próxima ocasión y, tal como un camello acumula agua en sus jorobas para los períodos de sequía, también ella había cargado sus reservas de energía para los malos momentos. Su corazón está lleno.






Nota: Este texto fue elaborado en el ambito del Desafio Celestices (#07). el punto de inspriacion fue el tema «Viagens»  de Pedro Abrunhosa fornecido por Susana Lemos.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O livro da vida

Desafiada por Hilén Miramontes, vi, recentemente, o filme «O Livro da vida» (2014). Embora se trate de uma película do género de animação e que, à partida, se julgue destinar a um público infantil/juvenil, pode (e deve) ser visionada por pessoas de todas as idades. Narra a história de três amigos, destacando-se o amor e a superação de adversidades sob o pano de fundo do dia dos mortos, celebrado inusitadamente no México.

O 2 de novembro consagra o dia dos «recordados», ou seja, a altura do ano em que se faz homenagem aos que já partiram deste mundo. “Só morre quem é esquecido” (Miguel Esteves Cardoso) e, por isso, enquanto os nossos entes queridos forem lembrados, continuam vivos. A memória assume, deste modo, um papel relevante na consagração de um facto da vida a que ninguém escapa: a morte. Contrariamente às práticas que conhecemos na maioria dos países ocidentais em que esta efeméride corresponde a um dia sombrio, marcado por incursões fúnebres aos cemitérios, as tradições de origem indígena no México são sinónimo de festividade – reconhecidas como património cultural imaterial da UNESCO. Há um dia no ano em que os mortos (ou “os recordados”) regressam para visitar os vivos e a sua chegada é esperada, entusiasticamente, por quem lhes sente falta deste lado da barricada. É uma forma saudável de se fazer o luto, na qual são preparados altares com os objetos preferidos dos falecidos e confecionadas, com primor, as suas refeições preferidas – a gosto dos mortos, mas quem se deleita são os vivos, obviamente. Música, desfiles de máscaras, enfeites de flores e muita, muita cor, em todo lado. Comemora-se a morte e a vida porque são duas caras da mesma moeda.
Desafio#06 (Hilén Miramontes)
Voltando ao filme, a abordagem apresentada pode contribuir para aligeirar o tom carregado dos conceitos de morte e de perda, fornecendo diferenças de perspetiva na observação da realidade. Gostei, em particular, do papel irreverente atribuído à personagem feminina cujo amor vai sendo disputado pelos dois grandes amigos – esta parte é um clássico. Porém, contrariamente ao que costuma suceder em histórias similares, a rapariga não se apresenta como uma donzela passiva e delicada que fica à espera que tudo aconteça à sua frente. Nada disso! Tem os seus próprios objetivos e ela mesma vai à luta (literalmente), toma as rédeas da população em situações de crise e demonstra assertividade perante os acervos machistas de alguns personagens.

Sustentando uma mensagem de valores fundamentais – amizade, união, luta pelos sonhos – o formato do “livro da vida” traz para o ecrã, de modo pertinente e inovador, os desafios atuais de homens e mulheres, não deixando de nos divertir e emocionar com toda a sua magia.



Nota: Este texto foi elaborado no âmbito do Desafio Celestices (#06). A ideia do filme «O livro da vida» (2014) fornecida por Hilén Miramontes  serviu de ponto de partida e inspiração para a redação do texto.   


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Texto en Español